LULA ENQUADRA SARNEY

Lula disse hoje que Sarney não pode ser tratado como uma pessoa comum!
Este ponto de vista de Lula confirma sua genialidade, sua enorme capacidade de classificar as pessoas.
O que seria uma pessoa comum?
Do ponto de vista morfológico é uma pessoa que contenha todos os elementos orgânicos que definem um espécime da raça humana.
Do ponto de vista comportamental é uma pessoa que tem todos os seus sentidos normais, lucidez, capacidade cognitiva, noção de limites morais e éticos e obedecê-los sistematicamente.
Do ponto de vista psicológico é uma pessoa com total capacidade sensorial, com controle sobre todos os seus sentimentos, comportamento adequado à convivência em sociedade, noção exata dos seus direitos e deveres e segui-los à risca.
Do ponto de vista jurídico é uma pessoa que obedece aos preceitos legais estabelecidos pela sociedade em que vive.
Uma pessoa normal é um modelo de como deve se comportar um verdadeiro cidadão.
Logo, Lula considera Sarney uma pessoa anormal e que deve ser tratada como tal. E Lula está coberto de razão!
Sob os pontos de vista citados, Sarney realmente só se enquadra como uma pessoa aproximadamente normal no quesito morfológico!
Nos demais falta-lhe muito ainda para poder ser enquadrado como pessoa normal, o que torna a fala de Lula uma verdadeira confissão de que Sarney é um anormal.
Sendo anormal ou incomum ou ainda não ser tratada como comum, significa que é um pária, um anormal e deve pois ser tratado como tal!
Em outras palavras, deve ser afastado da sociedade, mantido isolado pela desobediência às normas e preceitos que regem uma sociedade civilizada!
Lula desta vez chegou à perfeição!

Luiz Santilli Jr.

Amor Brasileiro

Estava fazendo entregas em um Motel, cujo nome não vem ao caso, um dos bons clientes que tenho.

Enquanto o conferente Manoel confrontava a Nota Fiscal e pesava a mercadoria, distraí-me um pouco e fiquei observando a fila de carros no caixa do estabelecimento. Para quem não sabe, o caixa de motel funciona como uma cabina de pedágio, onde a cancela só é aberta depois que a conta é paga. E fiquei ali, divagando mentalmente a respeito dos carrões enfileirados. O primeiro da fila era um Mitsubichi Pajero de cor azul, atrás dele estava um Cherokee negro que provavelmente pertencia ao jogador "Edmundo", pois a lateral estava meio amassada. Atrás dos dois estava um Audi também negro.

Lentamente a fila foi-se movendo, o Pajero partiu e observei uma certa demora no atendimento ao Cherokee. Passei a ter certeza de era realmente o "Edmundo" que estava ali, e muito provavelmente, criando caso com a menina do caixa.

Enfim o carrão se moveu, deixando a entender que já estava liberado. Eis que para minha surpresa, o carro se desvia lateralmente e deixa a mostra o motivo da demora. Era um casal a pé, que lentamente caminhava na pista de saída do Motel.

Obviamente a minha divagação mudou de rota e de donos. O dublê de "Edmundo" sumiu e aquele casal passou a ocupar minha mente por inteiro.

Pelas costas percebi que os cabelos dela estavam molhados, sinal de que eles fizeram ali o que tinham que fazer. As mãos dadas indicavam que se gostavam e provavelmente pertenciam um ao outro. Percebi alguns afagos dele nela, típico carinho de namorado, afagos autômatos, daqueles tão rotineiros que fazemos, sem sentir, em quem amamos.

Observei que ele era pardo e ela morena. Ele se vestia com calça de brim azul e camisa social branca, cinto e sapato de couro preto. Ela se vestia bem comportada, com vestido de algodão bege até a altura dos joelhos e sapatos de salto largo, de altura média.

Finalmente terminei minha entrega e observei que o casal tomou o mesmo rumo que eu tomaria na estrada, o que de certa forma me confortou, visto que aquela divagação havia chegado a um ponto crucial em que gostaria de ter o prazer de finalizar, sem precisar inventar.

Procurei sair devagar com meu veículo de modo a observá-los caminhando, e lentamente fui confirmando o que havia imaginado.
Os dois portavam alianças de noivos na mão direita.

Ultrapassei-os com meu carro e dei uma leve fitada nos rostos de ambos, através do espelho retrovisor:
Ele era mulato, ela de origem nordestina, ambos sem para-brisa, insulfilm, ar-condicionado, banco de couro enfim, nenhuma couraça metálica ou tecnológica, que pudesse esconde-los ou protegê-los de olhares larápios e curiosos como o meu. Mas estavam felizes, haviam se amado.

Um amor assumido, para quem quisesse ver. Sem moda, nem grife. Com as cores e raças do Brasil.

Um Amor Carioca,
Um Amor Brasileiro.

Marcos Santos
Rio de Janeiro

A foto que não bati – Av Rio Branco


Estava lendo “A Última Crônica” do saudoso Fernando Sabino, quando me recobrei de crônicas que escrevi na memória e que nunca tive a iniciativa de colocar no papel.

Sabino, sabido que era, colocou tantas quantas pôde e recompensa foi essa. Como morreu criança, no dia dela ele foi enterrado, eternizando em sua lápide uma de suas frases favoritas, de que “Nascera Homem e Morreria Criança”.

O Fernando nunca deixaria escapar de sua caneta e papel, amigos inseparáveis que eram, aquela cena urbana, que mesmo sem ser cotidiana, reflete o que somos e como somos.

Mesmo sob sol escaldante de verão de meio dia, aquele carro era seu único alento. Alheio a todo movimento do Centro do Rio, o “menino de rua”, negro como carvão, repousava em sono profundo sob o capô vermelho do veículo, que obviamente não era dele.

Diante da indiferença da população transeunte, fiquei observando aquela cena, enquanto o sinal não abria, e sinceramente me veio uma empáfia de achar que somente eu tinha a sensibilidade de enxergar algo tão incrivelmente triste e ao mesmo tempo tão belo, naquele quadro.
Como se, de toda aquela gente passante, apenas eu tivesse sido ungido de sentimentos e sensibilidade.

Foi quando me dei ao direito de tentar penetrar no universo do negrinho. Teria ele cheirado cola ou outro tipo de substância nociva ?
Ou apenas estava cansado de garimpar esmolas ? Talvez estivesse apenas fazendo a sesta do almoço.

A verdade é que ali estava um ser humano criança, demonstrando toda plenitude de sua inocência e fragilidade. Ao mesmo tempo, toda crueldade de uma Sociedade que se consome por si só. Que tem capacidade de temer a abordagem de uma criança desassistida e ao mesmo tempo, achar que a mesma criança pode dormir sozinha no meio da rua, debruçada num carro, sob Sol a pino.

A esta altura do meu raciocínio, o sinal dos pedestres começou a piscar.
Eis que surge, furtivamente, do outro lado da rua, um fotógrafo, obviamente munido de sua câmera fotográfica, e eterniza para si aquela cena impressionante.

...O sinal abriu e tive que ir embora.

Não conheço aquele profissional.
Sequer lembro de sua cor, se era preto, branco ou mulato.
Mas tenho certeza do seguinte, a minha empáfia arrogante foi por terra no clicar da câmera daquele homem, embora, de certa forma, compartilhe este momento com ele.

Ele, certamente, já tem a foto revelada há muitos anos.

Quanto a mim ?
...Somente agora tive o desprendimento de revelá-la.

...Ah, e quanto ao Sabino ?
... Provavelmente teria sido mais rápido do que o fotógrafo.


Marcos Santos
Rio de Janeiro, 12 de outubro de 2004. Dia do sepultamento de Fernando Sabino

Feito nas Coxas

Quando dirijo e vou percorrer grandes distâncias, gosto de ligar meu “piloto automático”. O modo mais fácil, é ocupar minha cabeça com assuntos que não digam respeito ao trânsito.

Normalmente mentalizo o percurso e em seguida faço jogos com as palavras, expressões, contas, etc....Quando me dou conta, já pensei diversos assuntos e a distância já foi percorrida num estalar de dedos.


Outro dia, estava a caminho de um parceiro comercial, cuja empresa fica na região Central do Rio de Janeiro, mais precisamente no Bairro da Saúde, quando uma retenção do trânsito, obrigou todo o tráfego a desviar-se pelas redondezas do morro do Santo Cristo. Começava ali um roteiro turístico pelas ruelas da Gamboa e adjacências.

Como estava em meu estágio de “piloto automático”, divagando sobre a toponomia carioca, de repente me percebi analisando expressões da linguagem brasileira e seus significados: “chapa quente”, “demorô”, etc...

Num dado momento, ainda no percurso das ruelas, paro em um semáforo. Bem defronte ao sinal estava um casarão antigo, na verdade muito antigo, do tempo do Brasil Império.
Fitei o prédio de cima abaixo, até que duas mulheres paradas na porta, chamaram minha atenção.
As duas, alvas como as mulheres nórdicas, e com trajes que deixavam suas coxas fartas e roliças totalmente à mostra.


Nesse exato momento o sinal abriu, dei mais uma olhada no casarão, do teto ao chão, e já saí divagando sobre outras expressões de linguagem. A primeira que me veio foi exatamente inspirada nas mulheres alvas: “feito nas coxas” foi a expressão.
Interessante é perceber que certas palavras ou expressões tem a capacidade de trilhar caminhos próprios e acabam por desvencilharem-se do verdadeiro motivo que as gerou.


Hoje sabemos que o significado da expressão “feito nas coxas” equivale a "feito de qualquer maneira", ou "feito sem capricho". É claro que a vinculação sexual da expressão é mais que compreensível, algo como um coito não finalizado, terminado ainda no prelúdio. Faz sentido. Realmente faz sentido, mas não é verdade.


Uma das hipóteses, para a origem dessa expressão, está muito mais ligada ao sofrimento de um povo do que se possa imaginar.


Até o Século IXX, as telhas das casas eram feitas de barro moldado nas coxas dos escravos, manualmente, uma a uma. É claro que cada pessoa tem suas individualidades anatômicas, e as coxas não fogem disso. Ou seja, cada pessoa fazia o seu padrão de telha. A expressão surgiu daí. “Feito nas coxas”, ou feito sem padrão de qualidade.


Mas o interessante para mim foi observar que cada peça, cada telha, guarda a marca individual do escravo que a confeccionou: seus pêlos, seus feixes de músculos, seus joelhos. A parte de cima guarda suas digitais. Digitais que prensaram a massa de barro sobre as pernas, sobre as coxas cansadas.


De cima do morro do Santo Cristo, alguns dos descendentes desses homens, observam os telhados do casario antigo. Não têm idéia que aquelas telhas guardam marcas de seus antepassados. Marcas reais, marcas estampadas de seus corpos. Digitais impressas, de um tempo de sofrimento e injustiça para seu povo. Mas eles continuam lá, nas senzalas modernas, sem o direito sequer, de conhecer sua própria história.


Marcos Santos
Rio de Janeiro

Coroa Grande e o Pé de Pato Preto

Coroa Grande é um Distrito do Município de Itaguaí. Lá passei a maioria das férias e feriados da minha infância.

Praia de fundo de baía, Coroa Grande não é aquilo que se possa chamar de “a praia”, com a boca aberta ou com os pulmões a pleno. Estava longe de ser uma Ipanema ou Leblon, praias da moda na época.

A maré estava sempre baixa, expondo o fundo de lodo e lama do mar. Era comum andarmos pelo menos uns cinqüenta metros ou mais, com a lama na altura da canela, até chegarmos na arrebentação, que na verdade não arrebentava nada. Quando muito, uma marola com meio metro de profundidade, o que proporcionava, invariavelmente, arranhões na barriga devido ao atrito com as conchas e os detritos de lixo depositados no fundo.

Ao mergulharmos, a água turva como chocolate ao leite, nos permitia uma visibilidade de uns... dois centímetros, o que deixava claro a preferência por um mergulho de olhos fechados.
No entanto, para mim, “Coroa” como nós a chamávamos, era um paraíso.
Paraíso dos sapos-bois e do “Macaquinho” (apelido carinhoso dado ao trem de madeira). Paraíso das valas abertas, proporcionando o assédio sexual das libélulas (que para mim continuam "lavadeiras"). Paraíso da poeira e da bananeira, do mosquito e da lamparina, da esteira de palha e do bloco de gelo, da água salobra e da falta de banho. Mas eu, na minha inocência infantil, adorava.

Muito antes de se ouvir falar em ecologia e crescimento sustentável, Coroa Grande já se via às voltas com a falta de saneamento, mas numa boa, sem maiores crises. Os “marujos” boiavam tranqüilamente no mar e tudo bem. Fazia parte da rotina e ninguém se incomodava. O único cuidado ecológico tomado a respeito do assunto, era mergulhar de boca fechada.

De vez em quando nós víamos alguns desses “navegadores” na cabeça ou no ombro de algum mergulhador desavisado... . Tranqüilo e sem estresse o prudente banhista dava mais um mergulho e pronto, o “almirante” seguia seu caminho sem maiores traumas.

Era comum a maré encher já no finalzinho da tarde. E nessa hora os verdadeiros heróis surgiam para dar aqueles sensacionais mergulhos acrobáticos.
Normalmente o sujeito tomava uma certa distância do mar e num dado momento iniciava uma verdadeira arrancada em direção à glória.
A areia não ajudava muito, mas os bravos, normalmente tentando impressionar alguma beldade, enfrentavam com coragem todo o tipo de intempéries oferecidas. E numa verdadeira corrida alucinante de obstáculos, em que faziam parte os tropeços em espigas de milho, latas velhas enferrujadas, garrafas de cachaça que Iemanjá devolvia, pedaços de paus, tijolos e um ou outro marisco abandonado, finalmente nosso guerreiro saltava para a água, numa barrigada triunfal.

A “princesa”, normalmente vestida com aquele biquinão de elanca, num sinal de orgulho e aprovação, juntava-se a ele no fundo e ali ficavam, juntinhos, meio que namorando.

Certa vez, num de meus mergulhos "táteis", encontrei algo diferente de todo o lixo rotineiro. Era um pé-de-pato. Não um par, mas um só pé, que por incrível que pareça era de um modelo infantil e no tamanho exato do meu pé esquerdo. Acho que esgotei toda e qualquer possibilidade de um dia ganhar na loteria, pois encontrar um pé-de-pato infantil, no meu número, de cor preta, no meio daquele lodaçal de mesma cor..., foi com certeza um bilhete premiado às avessas, um desperdício monumental de sorte. Mas eu adorei.
Era véspera de Natal e aquele achado superou em muito o presente titular de Papai Noel, fosse lá ele qual fosse. Tanto que minha memória fez a gentileza de apaga-lo, mantendo guardado na lembrança, só e somente só, o meu primeiro, único e durante um bom tempo inseparável, pé-de-pato preto.


Marcos Santos
Rio de Janeiro

fotos internet.

SOLIDARIEDADE - MEU CONCEITO


Solidariedade não se conquista com bandeiras.
Solidariedade não é um slogan de markting.
Solidariedade é uma atitude.
É uma atitude provocada por um sentimento que independe de seu credo, de suas convicções filosóficas.
Esse sentimento brota de uma emoção muito forte, nascida no interior de nossa mente e que se chama compaixão.
Mas esta emoção que vira sentimento, que vira atitude, não vem de graça.
Vem de centenas de milhares de anos de luta pela vida, pela sobrevivência, pela experiência registrada no nosso código genético, de que é mais fácil sobreviver juntos do que separados.
E por isso somos inclinados a nos atirar ao rio para salvar nosso semelhante!
Ele vivo representa nossa chance de sobreviver. Ele morto, ficamos mais fracos.

Solidariedade não é ajudar o próximo, porque as TV nos convoca!
Isso é esmola, não é solidariedade, porque pode virar vício.
A Solidariedade não é convocada por chamadas, por painéis nas ruas, por filmes promocionais, por campanhas institucionais das corporações!
Somos intrinsecamente solidários, pois todos temos o sentimento da compaixão, como todos animais!
Então você diz: isso é instinto!
No animal é instinto e no outro animal, o racional, e sentimento?
Em ambos solidariedade é instinto, sim, de conservação!
Solidariedade educa, quando é a pura compaixão.
E o que é essa compaixão?
É o grande incômodo que a tragédia do próximo nos causa e o incontrolável impulso de ajudá-lo.
Apenas isso provoca a Solidariedade.
O resto é a tentativa de resgatar nossa consciência pesada, pela culpa do que achamos que deveríamos ter feito pelo próximo e não fizemos.
E ainda pelo temor dos castigos dos céus por essas nossas omissões.

Luiz Santilli Jr.

MATANDO A SAUDADE

Muitas vezes temos vontade de rever nossos entes
queridos que já se foram.

Os sonhos são uma forma para isso, mas não temos o controle
sobre os mesmos e nossos encontros são ao acaso.
Outra noite, depois de muito tempo, encontrei-me com Marilena.
Não me lembro de que falamos porém, foi um encontro agradável,
ela estava bem e nos despedimos com um beijo que lhe dei no rosto.
Ela estava completamente diferente de seus dias finais,
após mais de um ano de luta.
Estava linda como sempre fora, cabelos pintados impecavelmente de loiro,
sempre bem penteados, muitas jóias.
Ela adorava jóias, presente para a mulher tinha que ser sempre jóia.
Mas além da mulher sofisticada havia a mãe perfeita.
Nenhum dos meus três filhos sabe o que é cárie dentária,
todos com mais de trinta anos.
Perfeccionista em todos os detalhes dos cuidados com as crianças,
até seu último dia de vida.
Foi bom revê-la, um bom momento depois de dez anos de separação.
O consolo que me ficou foi o de termos vivido uma grande paixão.
Nem todos têm essa ventura, uma paixão que o tempo transformou
num amor inesquecível.

Noite passada tive outro bom encontro.
Foi com meu tio italiano Claudio.
Claudio era arquiteto, depois da guerra veio para o Brasil
e conheceu minha tia Myriam, secretaria executiva, três idiomas,
mulher adiante de seu tempo, já na década de 50.
Tinha tudo para não dar certo, mas deu.
Casaram-se, nunca tiveram filhos, mas tiveram uma vida feliz
como poucos casais têm.
Eu fui o único sobrinho, entre uns dez ou mais, que aprovou o Claudio.
Ele sabia cozinhar como um chef e em nossa família
homem não entrava na cozinha nem para beber água.
O filtro ficava na copa.
Eu estava terminando o colegial e conviver com ele era uma novidade agradável,
pela sua cultura e suas receitas.
Logo me interessei pela culinária e ele foi meu grande professor.
Minha tia saiu da empresa em que trabalhava
e foram morar na Praia de Pernambuco, onde o Claudio foi
contratado como administrador
da construção do condomínio, junto ao Jequitimar
de Jorge de Almeida Prado,
em início de implantação.
Eu passei todas as minhas férias de final de ano com eles,
naquela paradisíaca praia do Guarujá.
Com ele aprendi a pescar pois, quando minha tia subia para São Paulo,
passávamos a noite nas pedras, pescando até o dia clarear.
Depois ele preparava os peixes, comprados dos pescadores porque
raramente trazíamos peixes pescados que fossem
suficientes para uma boa refeição.
Quando o mar estava calmo, saíamos a velejar, eu tremendo de medo,
mas sem dar um pio!
Ele era exímio velejador.
Essas e outras qualidades que ele apresentava, me encantavam,
pois nossa familia, oriunda do sul da Itália,
não era de muito papo com os mais jovens.
Durante os anos de faculdade, por várias vezes ele nos emprestou
seu escritório de arquitetura,
na Sete de Abril, onde o Adilson, o Serra e eu
passávamos a noite nas pranchetas fazendo projetos,
como a famosa ponte rolante.
Quantas pontas zero dois de canetas a nankin
voaram pela janela, entupidas de tinta!
Lá pelas três da manhã íamos à Ipiranga com São João, na Kibelandia,
fazer uma boquinha: dois quibes fritos e uma coca gelada.
Era um tempo em que se podia andar de madrugada
pelas ruas da cidade, belos tempos...
Encontramo-nos num trem, não sei o que conversamos,
mas o sentimento de alegria que senti ao reencontrá-lo
e o prazer de sua companhia foram indescritíveis, quase não parecia um sonho.
Acordei logo em seguida, ainda emocionado com os instantes a pouco vividos.
Me veio à mente sua polenta, feita de sêmola de milho,
água, sal e um pouco de manteiga,
mais quarenta e cinco minutos de barriga no fogão, mexendo sem parar.
Depois servida com um molho a La Bolognesa.
Devo estar com água na boca por essa polenta!
Esse italiano loiro e de olhos claros, lá dos confins de Trieste,
deixou muita saudade em todos nós.
Ainda falta encontrar meu pai e meu irmão.
Quem sabe um dia saberemos como controlar nossos sonhos
e encontrar quem desejarmos, quem sabe...
Luiz Santilli Jr.