MATANDO A SAUDADE

Muitas vezes temos vontade de rever nossos entes
queridos que já se foram.

Os sonhos são uma forma para isso, mas não temos o controle
sobre os mesmos e nossos encontros são ao acaso.
Outra noite, depois de muito tempo, encontrei-me com Marilena.
Não me lembro de que falamos porém, foi um encontro agradável,
ela estava bem e nos despedimos com um beijo que lhe dei no rosto.
Ela estava completamente diferente de seus dias finais,
após mais de um ano de luta.
Estava linda como sempre fora, cabelos pintados impecavelmente de loiro,
sempre bem penteados, muitas jóias.
Ela adorava jóias, presente para a mulher tinha que ser sempre jóia.
Mas além da mulher sofisticada havia a mãe perfeita.
Nenhum dos meus três filhos sabe o que é cárie dentária,
todos com mais de trinta anos.
Perfeccionista em todos os detalhes dos cuidados com as crianças,
até seu último dia de vida.
Foi bom revê-la, um bom momento depois de dez anos de separação.
O consolo que me ficou foi o de termos vivido uma grande paixão.
Nem todos têm essa ventura, uma paixão que o tempo transformou
num amor inesquecível.

Noite passada tive outro bom encontro.
Foi com meu tio italiano Claudio.
Claudio era arquiteto, depois da guerra veio para o Brasil
e conheceu minha tia Myriam, secretaria executiva, três idiomas,
mulher adiante de seu tempo, já na década de 50.
Tinha tudo para não dar certo, mas deu.
Casaram-se, nunca tiveram filhos, mas tiveram uma vida feliz
como poucos casais têm.
Eu fui o único sobrinho, entre uns dez ou mais, que aprovou o Claudio.
Ele sabia cozinhar como um chef e em nossa família
homem não entrava na cozinha nem para beber água.
O filtro ficava na copa.
Eu estava terminando o colegial e conviver com ele era uma novidade agradável,
pela sua cultura e suas receitas.
Logo me interessei pela culinária e ele foi meu grande professor.
Minha tia saiu da empresa em que trabalhava
e foram morar na Praia de Pernambuco, onde o Claudio foi
contratado como administrador
da construção do condomínio, junto ao Jequitimar
de Jorge de Almeida Prado,
em início de implantação.
Eu passei todas as minhas férias de final de ano com eles,
naquela paradisíaca praia do Guarujá.
Com ele aprendi a pescar pois, quando minha tia subia para São Paulo,
passávamos a noite nas pedras, pescando até o dia clarear.
Depois ele preparava os peixes, comprados dos pescadores porque
raramente trazíamos peixes pescados que fossem
suficientes para uma boa refeição.
Quando o mar estava calmo, saíamos a velejar, eu tremendo de medo,
mas sem dar um pio!
Ele era exímio velejador.
Essas e outras qualidades que ele apresentava, me encantavam,
pois nossa familia, oriunda do sul da Itália,
não era de muito papo com os mais jovens.
Durante os anos de faculdade, por várias vezes ele nos emprestou
seu escritório de arquitetura,
na Sete de Abril, onde o Adilson, o Serra e eu
passávamos a noite nas pranchetas fazendo projetos,
como a famosa ponte rolante.
Quantas pontas zero dois de canetas a nankin
voaram pela janela, entupidas de tinta!
Lá pelas três da manhã íamos à Ipiranga com São João, na Kibelandia,
fazer uma boquinha: dois quibes fritos e uma coca gelada.
Era um tempo em que se podia andar de madrugada
pelas ruas da cidade, belos tempos...
Encontramo-nos num trem, não sei o que conversamos,
mas o sentimento de alegria que senti ao reencontrá-lo
e o prazer de sua companhia foram indescritíveis, quase não parecia um sonho.
Acordei logo em seguida, ainda emocionado com os instantes a pouco vividos.
Me veio à mente sua polenta, feita de sêmola de milho,
água, sal e um pouco de manteiga,
mais quarenta e cinco minutos de barriga no fogão, mexendo sem parar.
Depois servida com um molho a La Bolognesa.
Devo estar com água na boca por essa polenta!
Esse italiano loiro e de olhos claros, lá dos confins de Trieste,
deixou muita saudade em todos nós.
Ainda falta encontrar meu pai e meu irmão.
Quem sabe um dia saberemos como controlar nossos sonhos
e encontrar quem desejarmos, quem sabe...
Luiz Santilli Jr.

15 comentários:

Marcelo disse...

Emocionante esta crônica! É difícil escrever com um nó na garganta e água nos olhos... tenho tido alguns encontros também com a mamãe. Todos muito bons.
Neste ano completaremos 10 anos sem ela. Que saudade...
Saudade de Claudio, também.
Beijo, pai.
Marcelo

Laerte Pupo disse...

Olá Santilli,

Gostei de ver sua cronica e a sua volta à blogesfera.

Escrever é um dom do qual poucos tem este previlégio. Você é um desses poucos.

Dizem que o sonho é uma viagem astral e que podemos controlar conforme nossos desejos.

Assim como escrever, sonhar é um previlégio de poucos.

Continue sonhando e escrevendo seu sonhos. Não perca esses dons que são preciosos.

Pereira disse...

Oh! Santillão
Muito bom vê-lo de volta às crônicas. E com o tempero das emoções como você tão bem sabe dosar, deu nessa belíssima página de recordações e nos mostra como foi construida a sua personalidade.
Grande presidente !!!

Anônimo disse...

Santilli,

Muito bom conhecer um pouco de sua vida, de onde vem seus dotes culinários e suas aventuras nas pescarias nas pedras e a vela. Aventuras estas que de certa forma temos em comum.
Lembrar das pessoas queridas e das coisas boas que elas nos passaram, nos faz valorizar ainda mais o nosso dia a dia.
Parabéns pela crônica.

Ébion

Paula disse...

Papa,

Sinto muito não ter conhecido minha sogra Marilena. O que conheço dela vem pelas narrativas que escuto pela convivência da família e através das lindas fotos.
Tenho uma grande admiração por ela ter sido tão bela, tão dedicada à família e por ter lutado pela vida.
Todas as vezes em que penso nela, ou que a vejo em fotos, sinto um arrepio, os olhos se enchem de água e me deixo levar pela emoção, porque tenho certeza que ela ainda paira por este nosso mundo. Está sempre ao lado dos filhos queridos, comemorando os sucessos e as boas coisas da vida. Está ao seu lado, admirando o primeiro netinho... Está por aqui!
Acho que seu sonho, na verdade, foi um encontro astral, como bem descreveu o Laerte.
Tenho tanta certeza que ela está por aqui, que chego a sentir seu perfume, por diversas vezes e só de saber que este pode ser um sinal dela já me basta!
Espero que de onde ela está, ela possa ter orgulho de me ter como nora, espero que ela aprecie como tenho cuidado do Marcelo e sinta todo o amor que tenho pela família Santilli.

Linda homenagem!

Beijos,
Paula

Eduardo P.L. disse...

Sonhar, e lembrar das coisas e entes queridos, é uma dádiva humana! Só isso já bastaria para nos diferenciar dos outros animais.

Muito boa sua crônica. Bom ve-lo de volta! Ainda que "sem foco"!...

Forte abraço

LUIZ SANTILLI JR. disse...

Pessoal

Quero agradecer a todos por seus comentários!
Foram todos muito atenciosos e para mim foi bom ter essa recepção no retorno à blogagem!

Abraços

Marcos Santos disse...

Ah meu amigo!

Sonhar é bom demais. Mais ainda quando conseguimos recordar dos mesmos. Mas quando conseguimos escrever sobre eles e compartilhar com os amigos, o prazer é indescritível.

Agora...essa polenta me deixou com a barriga roncando às seis da matina.

Maria Augusta disse...

Luiz, é realmente uma pena que não podemos controlar nossos sonhos e encontrar nossos entes queridos que partiram quando desejarmos. Muito emocionante a forma como você descreve a Marilene e seu tio, você os faz reviver nestas tuas palavras.
Um grande abraço e benvindo de volta à blogosfera.

Bill Falcão disse...

Belos sonhos, Santilli!!!
Aquele abraço!

Tertúlia Virtual disse...

Luiz,

este foi o link que você deixou no TERTÚLIA VIRTUAL, e como hoje é dia 15 vim conferir....

Forte abraço

rsrsrs!

Magui disse...

Belas lembranças muito bem dispostas .Para quem quer ser feliz sem contestar mais ainda.

Tertúlia Virtual disse...

Tá bom! Tem Feira do livro, mas dia 15 é dia de TERTÚLIA! PÔOOO!

rsrsrs!;-)

chicoelho disse...

Luiz muito bôa cronica,parabéns,mas é agua rsrsrs


Abç

SILÊNCIO CULPADO disse...

Santilli
Fiquei com um nó na garganta ao ler-te. É como percorrer um passado fantástico repleto de afectos e de referências. Um passado onde o nome das coisas estava associado à paixão da vida.
Por tudo isso valeu mais do que a pena.
Abraço